Os últimos dois poemas em vídeo ajudam-nos a encontrar uma definição romântica para o mar e transportam-nos para uma viagem mágica até ao fundo do mesmo.

Num fim de tarde, na Praia da Califórnia, em Sesimbra, as alunas Cátia Pinto (10º F) e Carolina Rodrigues (10º B), gravaram as leituras dos poemas “Tu perguntas, e eu não sei”, de  Eugénio de Andrade, e  “No fundo do mar há brancos pavores”, de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Chega assim ao fim a “saga” de poemas em vídeo, realizada pelos professores bibliotecários Luís Varela e Idalina Costa, alguns alunos da Escola Secundária de Sampaio e a equipa do jornal LOOKaes.

Celebrar a poesia e evocar o Mar foram os objetivos principais desta “aventura”. Esperamos que estes poemas possam despertar a curiosidade pela leitura de obras poéticas de referência e que reforcem todo o valor do Mar para o nosso país.

Boas Leituras!

Os poemas deste vídeo:

Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez uma lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta, quando é de noite.
Os teus dentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos dentes, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que a minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobe lenta arrastando a noite.
Os cabelos da minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita, abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.

 

Eugénio de Andrade


 

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

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