Na Semana da Leitura 2016, continuamos a celebrar a poesia através de uma seleção de Poemas em vídeo. Neste 3º episódio, em que o mar é o tema principal, a escolha recaiu sobre um poema ortónimo de Fernando Pessoa – ‘Mar. Manhã‘ – e em mais um poema da segunda parte da Mensagem do mesmo autor – ‘O Mostrengo‘.

Numa viagem entre o Cabo Espichel e o Castelo, a leitura dos poemas esteve a cargo da Cátia Quinta-Feira (10º G) e do Tiago Alves (10º F).

Neste artigo, apresentamos, também, uma seleção de fotografias de David Caretas, fotógrafo sesimbrense que, com uma grande sensibilidade, consegue mostrar-nos um outro olhar sobre alguns locais de Sesimbra. (Fotografias retiradas de: http://olhares.sapo.pt/caretas)

Antes, os poemas:

Mar. Manhã

Suavemente grande avançaBannerFotos_3
Cheia de sol a onda do mar;
Pausadamente se balança,
E desce como a descansar.

Tâo lenta e longa que parece
Duma criança de Titã
O glauco seio que adormece,
Arfando à brisa da manhã.

Parece ser um ente apenas
Este correr de onda do mar,
Como uma cobra que em serenas
Dobras se alongue a colear.

Unido e vasto e interminável
No não sossego azul do sol,
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula,
Quer de prazer, quer de pesar…
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar.

 

O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa

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