Dois anos volvidos desde o início do projeto, a equipa da ESS, desta vez formada pelos alunos Inês Santos, Josefa Marcelino, Sónia Caldas e Tiago Vidal, acompanhada pelas professoras Gabriela Gonçalves e Zulmira Martins, viajou para Rianxo, na Galiza, entre os dias 4 e 8 de maio, cumprindo, assim, a última etapa do projeto Comenius.

Desta reunião, fez parte a apresentação em Prezi sobre a vida da mulher nos anos 60, em cada um dos países parceiros, da responsabilidade da equipa portuguesa, a partir dos temas: Vida Familiar; Mundo do Trabalho; Direitos das Mulheres e Vestuário e Moda. O produto final pode ser consultado aqui.

O projeto terminou com a apresentação das várias etapas da sua concretização, organizada pela equipa espanhola, a quem coube a tarefa de coordenar esta parceria. Para ver aqui.

Tiago, o repórter de serviço, conta-nos como foi:

Antes de contar todos os pormenores sobre esta viagem, queria dizer que Rianxo fica em Espanha. E sei, que, “com tanto sítio para ires, foste aqui aos vizinhos!?”. Sim, viajei para Espanha, mas ainda bem que o fiz, porque nunca me senti tão em casa, fora do meu país.
Para quem não sabe, o Comenius é um projeto de intercâmbio, para jovens da nossa idade, promovido pela União Europeia, que dá a possibilidade de viajarmos para um país (no nosso caso, os outros países envolvidos eram a Espanha, a Turquia e a Alemanha), “à pala”.
Partimos para Espanha, a 4 de julho, num dia nublado, muito escuro. Viajámos numa carrinha alugada, conduzida por um motorista, e acompanharam-nos as professoras Gabriela Gonçalves e Zulmira Martins. Acho que o pior da viagem para lá foi a duração (8 horas!), que nos deixou de rastos.
O tempo estava intimidador nesse dia, umas vezes estava um céu nublado serrado, a ameaçar chuva, outras abria para dar lugar a um sol radioso. Uma das poucas paragens que fizemos foi para almoçar, numa estação de serviço da Bairrada, a terra do leitão. Comemos numa área que fazia lembrar um refeitório, com tabuleiros e aquela estrutura metálica que serve para os pousar. Fiquei cheio que nem um ovo!
A comida estava muito boa, e, com a barriga cheia de leitão e panados, rumámos à estrada. Entretanto, cada um de nós foi adormecendo, quando abria um olho, estávamos a passar o Porto, quando abria outro, já tínhamos passado a fronteira. Até que, finalmente, chegámos a Rianxo e um dos professores espanhóis conseguiu ver-nos e levou-nos até à escola, o Instituto Félix Muriel.
O tempo era agora super ameaçador. Assim que pusemos o pé fora da carrinha, para irmos buscar as malas, começaram a cair baldes e baldes de água, nas nossas cabeças, e, em poucos minutos, ficámos ensopados.
Tinha chegado o momento, pelo qual ansiávamos desde o início da viagem, em que íamos conhecer, pela primeira vez, as nossas famílias de acolhimento. Assim que a professora encarregue do projeto disse o meu nome em voz alta, juntamente com o da Estrela, fiquei corado. A Estrela apressou-se logo a dar-me um beijo acompanhado por um risada geral. Foi quase automático, cumprimentei o pai dela (que me fez lembrar o Mr. Bean) e fomos imediatamente para a sua casa. A casa era maior que a minha, tinha dois pisos e uma garagem, o primeiro onde ficava a cozinha, os quartos, a casa de banho e a sala e o segundo, que era uma espécie de sótão, onde eu e um outro rapaz íamos dormir. Esse rapaz, de origem alemã, só iria chegar por volta das 23:00, por isso, eu e a Estrela resolvemos entreter-nos com alguns jogos. Num dos jogos de tabuleiro, o objetivo consistia em tentar descrever um conceito, animal ou nome, usando só gestos. Ri-me tanto, fiz uma série de “falsos amigos” e fui descobrindo palavras que em galego e em português significam o mesmo. O alemão nunca mais chegava, e ela perguntou-me se não queria jantar, a que respondi com um sim assertivo (devido à minha barriga raivosa), mas logo corrigi “Sim, por favor”.
Depois de um hambúrguer bem recheado, fomos buscar o Jonas. Assim que vi o Jonas, concretizou-se o estereótipo de um adolescente alemão que estava na minha cabeça, alto, louro, magro, e com uma pele muito branca. Quando chegámos a casa, o Jonas devorou um hambúrguer em duas dentadas (descobri, depois, que ele vive numa terra perto de Hamburgo). Estava mesmo com fome, coitado,”Very Good!”, dizia ele, de boca cheia. Já era tarde, quando resolvemos ir lavar os dentes e a Estrela nos avisou que íamos ter “clases por la mañana”. Ah! Quase me esquecia de um pormenor importante, ninguém na família sabia falar inglês, e, como conseguia acompanhar o galego deles, e sabia falar bem inglês, tornei-me no tradutor de serviço. Até me doeu traduzir aquelas palavras afiadas ao meu colega de quarto. Talvez tenha sido uma das más decisões feitas pela equipa espanhola, é que, se tivéssemos assistido num dia a uma aula, não teria feito diferença, mas durante a nossa estadia, todos os dias tínhamos de levantar-nos cedo para ir para a escola e ter aulas.
Já na cama, falava com o Jonas um pouco sobre mim e o facto do meu pai trabalhar numa fábrica da Volkswagen. Enquanto trocávamos “facebooks” e What’s App, reparei que o nome dele se escrevia da mesma maneira que o nome português “Jonas”(apesar de se ler “Yonas”).
No dia seguinte, acordámos às 07:40, para tomarmos rapidamente o pequeno-almoço e apanhar o autocarro. Apesar dos nossos esforços, não conseguimos chegar a tempo à paragem, e a mãe da Estrela teve que nos ir pôr à escola. A escola era cinzenta, de betão, feia, e fazia lembrar uma prisão (talvez qualquer escola faria lembrar uma prisão se tivesse de acordar cedo numas supostas “férias”). Reunimo-nos todos à entrada da escola, à espera dos restantes membros do projeto. Tínhamos sempre duas aulas de manhã. No primeiro dia, tivemos Física e Química e Economia. Sabendo falar espanhol, tal tornou-se numa grande vantagem para mim, em relação ao Jonas, uma vez que os professores metiam-se comigo e estavam mais à vontade para ter conversas mais elaboradas do que com o meu colega de quarto.
Assim que terminaram as aulas, fomos até Santiago de Compostela. Logo de manhã, visitámos um museu de arte contemporânea, que tinha algumas peças interessantes e abstratas, mas outras que chegavam ao ponto de alguns questionarem, “Mas isto é arte???”. Algumas piadas sobre se os artistas estariam sob o efeito de drogas quando tinham pintado ou realizado uma obra eram mais que esperadas. O Jonas ia comentando as obras ao longo dos corredores e a palavra que mais utilizava era “Boring!”. Um museu de arte moderna não é propriamente um sítio para levar adolescentes sedentos de aventura e novas descobertas.
Depois do museu fomos até ao ex libris da cidade, a Catedral de Santiago de Compostela. O que mais me entristeceu foi o facto da fachada da catedral estar a ser recuperada, e tinham-lhe posto um pano por cima, com uma fotografia em tamanho real que me fez lembrar uma situação tipo desenho animado. Primeiro, subimos uma escadaria em caracol, até aos telhados da catedral. A vista era linda! Depois, contaram-nos que poucos eram os visitantes que tinham acesso àquela área. No final do telhado (e depois de várias fotos de grupo), descemos e visitámos a catedral propriamente dita, a “créme de la créme”. Quando dei o primeiro passo para entrar, senti um arrepio acompanhado por um bom feeling, e esse sentimento percorreu-me no resto da visita. Eu não sou religioso, mas há uma energia positiva naquele lugar e eu senti, há quem lhe chame ‘fé’. Por dentro, a catedral é lindíssima, e não há palavras para descrevê-la, desde o túmulo do santo até ao altar (onde passámos mesmo por trás da figura de Santiago).
Depois da catedral, passeámos por ruas estreitas, que faziam lembrar a baixa do Chiado, em Lisboa, devido à sua arquitetura. Após as compras habituais, ainda houve tempo para visitarmos uma universidade que remonta à Idade Média!
O dia estava feito, por isso voltámos a Rianxo. A distância de Rianxo a Santiago de Compostela é mais ou menos a mesma de Sesimbra a Lisboa. Estávamos exaustos, mas os alunos espanhóis convidaram-nos para um jantar, só com os jovens do projeto. Jantámos numa hamburgueria, conhecida por ter os melhores hambúrgueres da zona (e, sim, mais hambúrgueres). Foi muito divertido! A comida estava boa, mas já tinha comido melhores hambúrgueres. O Real Madrid estava a jogar com a Juventus, e começaram a descrever o ódio que sentiam pelo clube madrileno e o amor pelo de Barcelona. Foi muito engraçada a forma como defendiam o seu clube, contrapondo com a nossa febre pelo CR7. Depois de ter entornado metade de uma cola no colo do Jonas (e de todos terem reparado na minha trapalhice), fomos embora, desconhecendo o “dia duro” que seria o seguinte.
Nessa manhã, tudo era um deja vú, desde o acordar cedo até ir a correr, para apanhar o autocarro, tudo era familiar. Curiosidade engraçada: os estudantes não pagam nada para ir para a escola de autocarro, tudo é financiado pela autarquia. Quando chegámos, reunimo-nos todos no hall de entrada, à espera que tocasse. Nesse dia, tivemos Inglês e fomos feitos “cobaias”. Quando entrámos na sala, notava-se aquele burburinho típico de uma turma agitada por “novas presenças”. Todos os alunos do projeto Comenius sentaram-se mais atrás na sala, enquanto olhares curiosos nos inspecionavam e comentavam. Pela introdução da professora de Inglês, apercebemo-nos que não seríamos meros espectadores, mas sim os atores principais. Cada um ia dizendo o seu nome, a sua idade, e algo sobre si. A professora ficou impressionada com o nosso nível de inglês e fartou-se de nos elogiar. Viu-se que o seu discurso e “os portugueses serem melhores a inglês” já tinha sido preparado, pelo tipo de perguntas que ela foi fazendo. Um dos alunos perguntou-me qual era a minha banda preferida e respondi, os Pearl Jam. Repeti o nome da banda com todos os sotaques possíveis, mas não sabiam o que “Pearl Ram” era. A segunda aula foi de MACS. Achei piada a matéria ser a mesma e os alunos não utilizaram calculadoras gráficas. Um pormenor engraçado é que os galegos têm aulas seguidas, ou seja, têm uma aula de 50 minutos e, quando toca, o professor sai e os alunos esperam que venha um outro.
Depois das aulas, visitámos as instalações da escola. A escola em si não tem tantos espaços verdes como a nossa; o bar e o refeitório fundem-se num espaço do tamanho de um café pequeno, muito “XPTO”, com máquinas de bebidas e snacks igualmente “fancy”, mas que encravaram quando quisemos pedir alguma coisa. Esse espaço estava cheio de gente e, como não existem cartões eletrónicos (ou seja, qualquer um pode sair da escola quando quiser), os alunos são obrigados a pagar em dinheiro. Têm ainda um ginásio e um campo do tamanho de um campo de futsal.
Depois da visita à escola, passámos o dia todo em Rianxo. Primeiro, visitámos a feira, passando pela Rua Estreita e pela Rua Larga, parando na Rua de Cima e na Rua de Baixo (não estava com muita imaginação, o “tipo” das toponímias). Vimos também a fachada da casa de um poeta famoso da região que, pela gravura, era super parecido com Fernando Pessoa e, ao lado, estava a casa de um importante presidente da câmara. De seguida, andámos até ao teatro municipal, para vermos a exposição que a equipa espanhola tinha preparado. Poucas pessoas estavam interessadas na exposição (de tão fartos de andar). Os mais interessados eram os locais, via-se que tinham um grande orgulho em pertencerem àquela localidade. A seguir, tirámos as habituais fotos de grupo e zarpámos para a serra. Na viagem, no meio daquela natureza toda, esperávamos algo “breathtaking”, mas o que tivemos (mais uma vez) foi uma ida a um museu sobre a existência de vestígios da pré-história no concelho, o pior mesmo foi um vídeo que mostraram logo à entrada, com 30 minutos em que quase adormecia. Depois desse museu chato, fomos até um miradouro (talvez o ponto mais alto da região), com uma vista única sobre Rianxo e, sobretudo, para o mar.
A última paragem do dia foi a uma praia, rodeada de pinheiros, em que tinha estas rochas que faziam uma espécie de falésia para o mar. A beleza é indescritível, a forma como o brilho do sol refletia no mar era, sem dúvida, uma imagem memorável. Quando voltámos a Rianxo, uma das nossas colegas espanholas convidou-me, mais ao Jonas e à Estrela, para jantarmos em sua casa. A casa era relativamente pequena, mas com um ar típico espanhol. Comemos vários petiscos, desde rissóis de camarão a pizzas congeladas (a comida espanhola não é grande coisa) e algumas empadas típicas de atum. Já era de noite, quando fomos ter com os restantes membros de projeto, para depois rastejarmos até à cama.
Acordámos na manhã seguinte, conscientes de que esse seria o último dia de atividades e que, no dia a seguir, todos iriam voltar aos seus países. A manhã foi um fiasco. Supostamente toda a gente tinha trabalhado numa apresentação sobre o tema para apresentar nesse dia. Chegámos à sala, destinada para o efeito e nós, portugueses, estávamos nervosos. Sentámo-nos a discutir e a rever a apresentação, para que nada falhasse, pois nós seríamos os segundos a apresentar, mas, assim que chegou à nossa vez, a professora responsável começou a passar os slides e a comentar, “Oh, que giro.”, “Que interessante.”. Fez isto com todos os países, dizendo que não iríamos ter tempo para toda a gente apresentar. Descobrimos mais tarde que os próprios espanhóis não sabiam da existência da apresentação.
Meio zangados, fomos de autocarro a uma conserveira/museu, minimamente interessante, mas cuja guia não sabia falar inglês, pelo que a professora Gabriela teve que traduzir. Um vídeo “interessante” não estava em inglês e, então, os alemães e turcos não conseguiram acompanhar a história da conserveira. Depois disso, fomos lanchar e, logo a seguir, fomos para um barco. O barco tinha dois andares, um deles coberto e o outro descoberto. Quisemos subir até ao segundo andar. para apreciarmos a vista. Ao longo do tempo, cada vez mais nuvens se iam aproximando e o vento não parecia muito amigável. O barco acelerou e fomos empurrados para cima e para baixo, como num kanguru. Foi muito radical e divertido. O destino era uma ilha deserta que fazia parte do arquipélago “Las islas osos”. A ilha em si é muito bonita e pode ser percorrida a pé em 50 minutos. Depois, tivemos que ficar uma hora na ilha, para fazer tempo até ao jantar final. Depois da hora passada, fizemos uma viagem mais calma no primeiro piso do barco. No jantar, estavam todos os elementos do projeto, todos os pais, todas as mães e todas os avós. A comida era tanta que dava para dar de comer a um batalhão e tinha muitas coisas da região. Dançámos ao som de várias músicas, como a Macarena, para TODA a gente ver.
Com o jantar acabado, chegou a altura das despedidas. Um dos espanhóis, quando soube que eu era português, gritou ”hermano!” e abraçou-me. Esse espírito dos galegos foi muitas vezes sentido ao longo da nossa viagem. O facto de sermos “vizinhos” fez com que fossemos tratados de uma forma única e muito especial em relação aos outros participantes. Eu também tive de despedir-me do Jonas, porque não o iria ver na manhã seguinte. Acordei um pouco triste, mas, quando chegou a altura para arrumar as coisas encontrei uma tablete Milka (alemã) dentro dum saco. Foi uma experiência única que nunca esquecerei, e recomendo a toda a gente que gosta de conhecer pessoas novas e que quer alargar os seus horizontes, descobrindo países novos, a embarcar nesta viagem.

Tiago Vidal

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