Ficar a ver navios

Esta é uma expressão bem portuguesa. Significa “ficar à espera de algo que não veio, que acabou por não acontecer”. Para esta expressão há várias explicações. Já aqui apresentámos duas explicações para esta expressão. Iremos apresentar mais uma.

Esta explicação teria origem (mais uma vez) na intolerância religiosa contra os Judeus. Em 1492, os reis de Espanha determinaram que os judeus que não se convertessem teriam de abandonar o reino. Centenas de milhares atravessaram a fronteira e fixaram-se em Portugal, engrossando a já numerosa comunidade judaica portuguesa.

Em 1497, entretanto, D. Manuel I, rei de Portugal, ambicionando unificar a Península Ibérica sob a sua coroa, quis casar com a filha dos Reis Católicos. Mas foi-lhe exigido que expulsasse todos os Judeus que, vivendo em Portugal, não se tivessem convertido ao Catolicismo (os Judeus portugueses e os antigos Judeus espanhóis). Mas o rei português era um homem pragmático e decidiu não expulsar os seus súbditos de religião judaica. Afinal quase todos os intelectuais, comerciantes, banqueiros e mão-de-obra especializada eram Judeus. Portugal não podia perder esta gente.

Assim, estabeleceu D. Manuel um plano para reter os Judeus em Portugal. Começou por tirar os filhos menores de 14 anos aos pais, para que fossem convertidos e batizados. Não satisfeito com os resultados, fingiu depois marcar uma data de expulsão na Páscoa de 1497, decretando em segredo o batismo em massa de todos os Judeus que quisessem abandonar Portugal.

D. Manuel I, o Venturoso

No dia marcado para o embarque, estando reunidos milhares de Judeus em Lisboa, à espera no porto, da chegada dos navios que os levariam para países mais tolerantes, foram batizados contra a sua vontade, muitos arrastados até à pia batismal. E D. Manuel bradava, para que a sua grossa voz se ouvisse em Espanha: «- A partir de hoje somos todos Cristãos. Já não há Judeus no Reino de Portugal!» A expressão «ficar a ver navios» teria nascido nesse dia…

BIBLIOGRAFIA

VALE, Andreia (2015) – Puxar a Brasa à Nossa Sardinha… e outras 270 expressões que usamos no dia-a-dia sem saber a sua origem. Queluz de Baixo: Manuscrito Editora.

CARVALHO, Sérgio Luís de (2021) – Não me chames de …; Estranhas origens & bizarras histórias de mais de 500 insultos portugueses. 6ªed. Lisboa: Planeta.

Junho 2022, enviado pela Prof.ª Antónia Torres

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