Porque o saber não ocupa lugar, e parados não vamos a lado nenhum, primo pela vontade de tentar saber para poder fazer. Com este mantra em mente, decidi ingressar numa formação sobre o tão falado DUA, incluído também no mais recente Projeto Maia, de forma a poder juntar-me aos facilitadores da transição para este novo paradigma de ensino.

O texto que se segue foi retirado do último trabalho requerido na formação, que consistia numa reflexão crítica sobre os temas trabalhados. Depois de partilhar com a equipa do LookAES, considerou-se ser de interesse partilhar com a comunidade.

“Inicio esta reflexão pelo nome da formação “Para uma educação inclusiva”, porque é a meta pela qual se luta desde há uns anos para cá: tornar a escola um local seguro e onde todos os nossos alunos possam aprender. E por todos, refiro-me mesmo a todos, não apenas aqueles que se apresentam dentro da curva da normalidade.

A minha reflexão começa exatamente por aí, pela normalidade, conceito proveniente da estatística, mas que de alguma forma acaba por ser desconhecido no seu verdadeiro significado. Ser normal implica que dentro de uma distribuição normal nos encontremos numa posição com elevada frequência, ou seja, se pensarmos numa distribuição estatística, a curva inicia com poucos casos e terá tendência a subir para uma zona onde existirão o maior número de casos para depois voltar a descer até desaparecer. À zona central da distribuição chama-se normal, e aos extremos franjas.

Ora, se pensarmos na distribuição dos alunos nas nossas escolas, percebemos que habitualmente os professores tentam chegar ao maior número de alunos possível de forma a garantir o sucesso, apontando por isso para a zona central da curva, onde a probabilidade de “chegarem” a mais de 50% dos alunos é maior. Como forma de regular, primeiro com o decreto-lei 3/2008 e depois com decreto-lei 54/2018, o estado legislou no sentido de garantir a igualdade de acesso ao conhecimento/escolaridade por alunos com dificuldades de acompanhar a curva normal, ou seja, os alunos que se encontram nas franjas da distribuição, criando medidas e apoios específicos de forma que estes consigam ultrapassar as suas barreiras à aprendizagem. O conjunto de ambas franjas estima-se que andará pelos 10% dos alunos das nossas escolas, então que fazer aos 40% que ainda se encontram descurados/negligenciados?

É como resposta a estes estimados 40%, distribuídos entre a curva ascendente e a curva descendente, que surge o desenho universal para a aprendizagem (DUA), já que através de uma mudança de paradigma na metodologia de ensino alarga a abrangência do professor. Este novo paradigma, assente sobretudo na autonomia do aluno, permite  a escolha de entre várias alternativas as que melhor se adequam à sua forma de aprendizagem.

O decreto-lei 54/2018 veio renovar a forma como olhamos para as barreiras de aprendizagem dos alunos, na medida em que introduzindo uma nova pirâmide de organização de resposta às barreiras existentes nos nossos alunos, permite que todos possam usufruir de um ensino mais individualizado, quer pela aplicação das medidas universais, que se encontram ao dispor do professor, quer por apoios mais especializados mediante a avaliação pelo recém-criado órgão competente, a Equipa Multidisciplinar de Apoio ao Ensino Inclusivo (EMAEI), onde estão representados os vários elementos presentes numa escola.

Regressando ao DUA, este assenta num princípio sobejamente conhecido de que um aluno motivado terá uma maior facilidade na aprendizagem. Assim sendo, e apostando na sua maior autonomia, é pedido aos docentes que aquando da planificação das suas aulas, tenham em conta o maior número possível de barreiras à aprendizagem, criando assim diversas formas quer na transmissão do conhecimento, como na sua avaliação, permitindo aos alunos escolher a forma que melhor se adequa a si, na sua procura de sucesso. Este modelo que à partida parece ser mais complexo, permite aos docentes terem uma maior disponibilidade para acompanhar os alunos com maiores dificuldades dando margem de desenvolvimento aos mais autónomos.

Durante a formação, foi-nos pedido que nos colocássemos no papel de docente e planificássemos uma subunidade de uma matéria, disciplina e ano à nossa escolha, o que permitiu pôr em prática os conceitos teóricos que nos foram transmitidos pelas aulas assíncronas. O que, em conjunto com um segundo trabalho onde tínhamos de identificar as barreiras à aprendizagem e encontrar possíveis soluções, enquadradas nas medidas universais, permitiu ter uma perceção da dificuldade existente na planificação, tornando-se evidente a necessidade de formação dos docentes para que possam enfrentar este desafio com as ferramentas necessárias ao seu sucesso.

Deste trabalho conjunto, a conclusão a que chegámos é que ainda há muito caminho a percorrer. Até porque quando este envolve pessoas, entram fatores emocionais e vícios enraizados que se apresentam como barreiras ao sucesso da aprendizagem de todos: educadores, professores, formadores, alunos e ousarei dizer até encarregados de educação.

Em suma, após esta experiência, mais me convenço das dificuldades de aplicar este modelo, pois fazendo uma analogia entre este grupo de formação e uma sala de aula, onde seria esperado podermos aplicar o próprio modelo DUA, verificou-se uma série de constrangimentos, nomeadamente um apego aos modelos clássicos de ensino/aprendizagem que pretendemos ultrapassar.”

Fevereiro 2022, partilhado por Luís Araújo

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One Response

  1. Ana

    Muito bom artigo !Obrigada pela partilha! Vamos, temos que tirar algum proveito do que nos é dado a conhecer!
    Sou 💯 apologista desta nova forma de aprendizagem!

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