Pelo título pode até não ser fácil identificar, mas sim, também eu me rendo a escrever umas linhas sobre o “Squid Game”. Tenho tentado manter-me afastado do tema, tendo em conta que roda na internet como um incêndio descontrolado…hoje toda a gente quer provar as lulas e tecer os seus comentários.

Decidi então que iria tentar abordar o tema sob um ponto de vista diferente, em vez de pegar em todos os efeitos nocivos que a série possa ter sobre os nossos jovens, o que lhe valeu ter uma recomendação de visualização para maiores de 16 anos… e porque não tentar entender o que realmente é abordado na série, e deixar que sejam os pais a decidir se são conversas que desejariam ter com os seus filhos?

Começando por uma sinopse para os poucos que ainda não ouviram falar da série que está em exibição na Netflix.

A ação desenvolve-se na Coreia do Sul, e perante o excessivo endividamento da população, surge um concurso que permite aos jogadores terem acesso a cerca de 33 milhões de euros, através de 6 jogos infantis. Neste concurso entram 456 voluntários. O que não é explicado aos jogadores é que perderem nos jogos tem consequências mortais.

Ao longo dos episódios somos presenteados com as razões que levaram alguns dos jogadores à participação. Através de flashbacks conhecemos a história dos personagens principais, desde uma filha que procura tirar os pais da Coreia do Norte, onde eles estão em risco de vida, passando por um Gangster, caído em desgraça no mundo do crime, um investidor que é procurado pela polícia, até um viciado no jogo que deseja ser um melhor pai.

Estão lançadas as pedras basilares para uma trama dramática em que se torna possível justificar as ações dos personagens, que de alguma forma produzirão a morte de outros participantes.

A partir do primeiro jogo e com a perfeita consciência do que irá acontecer, presenciamos os debates internos das personagens, entre a sua sobrevivência e a morte de outrém. Toda a série está pensada para nos levar a questionar até onde iríamos para resolver a nossa vida, seja por dinheiro ou efetivamente para preservar a nossa sobrevivência, e quais os argumentos que escolheríamos perante tais situações.

Se perguntarmos a alguém na rua se seria capaz de matar outra pessoa por dinheiro, a resposta será quase garantidamente que não, mas seremos nós capazes de arranjar justificações para o fazer?

Durante o desenrolar da série é também possível observar alianças que se criam entre os jogadores, antecipando-se à partida que o jogo está criado para apenas haver um sobrevivente, mas ainda assim são criadas alianças, e feitos planos de divisão do prémio, como se fosse indispensável ter uma relação dentro do jogo, e fazer face à nossa necessidade de relações significativas de confiança.

Mas que mensagem nos é transmitida?!… todos esses laços são efémeros e apenas servem uma função, levar-me o mais longe possível no jogo, pois quando deixarem de ser necessários, então vou abandoná-los, e se necessário atacá-los.

Tendo em conta estas premissas… Vamos agora ao que tem levantado tanta contestação na opinião pública… Será que é uma série a ser vista por crianças? Acho que nenhum pai dirá que sim ou, quanto muito, movido pela fuga à culpa, dirá que eles já veem coisas piores.

Efetivamente não acho ser um conteúdo para jovens e concordo completamente com a classificação para maiores de 16 anos, acompanhados ou não.

Mas eis que o problema não surge apenas nas crianças que têm acesso indiscriminado à plataforma, mas sim transversalmente a todas as crianças, porque mesmo aquelas que não viram a série são bombardeadas com clipes no Tiktok e, aí sim, são apenas apresentadas as partes mais assustadoras encarnadas pelos “influencers” idolatrados pelos seus seguidores.

Aqui, as práticas parentais revelam-se muito mais permissivas, já que a sua maior preocupação é o que as crianças publicam e não aquilo que veem. Não temos sangue ou nudez, já que os “bots” não permitem, mas tudo o que é assustador para o imaginário de uma criança pode ser difundido. Assim chegamos ao título… neste momento as redes sociais generalizam a informação e chegam a todo o lado, qual polvo que estica os tentáculos em todas as direções, e encontram mentes ingénuas e pouco preparadas para lidar com todo este mundo imaginário, como foi possível verificar no que sucedeu com os fenómenos adolescentes “baleia azul” ou “Momo”, em que jovens mais fragilizados ainda hoje lidam com consequências dos traumas sofridos.

Estes fenómenos desapareceram, tal com o “Squid” cairá no esquecimento da população em geral, embora exista um grupo de crianças, talvez mais do que imaginemos, que moldaram o seu mundo imaginário em torno de algo que não era suposto ser real.

Cabe-nos a nós, pais e cuidadores, entender e explicar o que está por trás destas fantasias, sabendo de antemão que enfiar a cabeça na areia não é opção…

Novembro 2021, partilhado por Luís Araújo

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One Response

  1. Viking

    Concordo plenamente com a analise feita.
    Para mim o maior problema é mesmo os jovens estarem a ser criados em piloto automático devido a “falta” de tempo dos pais, não havendo assim noção do que é realidade ou ficção.

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