Este fim de semana fui ver uma peça de teatro amador, o tema interessava-me ou não fosse sobre bullying, drogas, escola, enfim, a vida típica dos adolescentes.
O texto foi escrito por um adulto, alguém com experiência de vida, que trabalha com jovens, e por isso terá um insight sobre as suas vivências.
O que me deixou de alguma forma preocupado foi a frivolidade com que os temas foram abordados, o que não é defeito desta peça, mas sim da forma como a sociedade encara estes fenómenos.
São atribuídas causalidades diretas que assentam em preconceitos sobejamente conhecidos…o pai ausente do país… os pais que trabalham demais… a mãe falecida…a falta de perspetivas de futuro, mas e se todos estes preconceitos nos estiverem a impedir de ver o que realmente sucede na nossa juventude, ou pior ainda, se formos nós a empurrar jovens a corresponder ao que à partida esperamos deles?
A minha experiência dentro e fora das grades da escola diz-me que já ninguém quer ouvir o que os nossos jovens têm para dizer, a linguagem deles é críptica, carregada de estrangeirismos e neologismos, difícil de decifrar, e é tão mais fácil simplesmente assumir que é adolescente, com problemas… E assim se vão perdendo os nossos jovens em papéis pré atribuídos por nós.
Ainda sobre a ida ao teatro, enquanto se aguardava a subida do pano, na fila atrás de mim estava um grupo de jovens, que pelo que percebi vinham apoiar uma das atrizes em cena, eram jovens, irreverentes, cheios de certezas, e carregados de pseudo intelectualizações, usando bengalas linguísticas como “tipo” a cada duas palavras, ou termos em inglês roubados a um qualquer influenciador das redes sociais, em que muitas vezes a tradução nem sequer se adequa ao sentido da conversa, mas fica bem, mostra que sou inteligente… Tristeza, foi o único sentimento que me atravessou durante aqueles 30 min de espera, em que ouvia 4 rapazes com idade para já terem 5 anos de serviço militar, referirem-se às companhias da noite anterior como pedaços de carne que teriam servido o seu propósito. Deixem-me só referir que não tive de fazer qualquer esforço para seguir a conversa, era tida como se estivessem a discursar para um anfiteatro preenchido, uma pré do que se iria ver em palco.
Estes jovens, educados, ou pelo menos com educação superior, que não sei se será a mesma coisa, não são dignos de carregar o estandarte tão publicitado de uma juventude de mente aberta e capaz de levar esta sociedade a um local melhor que as gerações anteriores.
Vamos acreditar que este foi um problema de amostragem, que não passou de erro de casting, que estes jovens não são representativos da nossa juventude, sim, vamos ter essa esperança, sendo que no fundo sabemos que não passa disso mesmo, uma esperança…

Outubro 2021, enviado por Luís Araújo

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