Na quinta-feira passada, despedia-me eu dos alunos de geometria com a convicção de que iríamos passar para o regime de ensino não presencial, de Ensino à Distância [E@D], com as nossas sessões no Zoom e trabalhos na Classroom…quando…estava longe de suspeitar que nos haveriam de remeter para férias, para uma interrupção lectiva fora de calendário, em mês frio e sombrio como o Janeiro que estamos a atravessar.

Despedia-me eu das turmas do secundário vincando a importância de se cuidarem, de evitarem o contágio, de não propagarem a doença e protegerem os mais idosos, quando me assaltou a ideia de que, para nos podermos voltar a encontrar na escola e retomarmos o curso desejável das nossas vidas, o mais importante que tínhamos de fazer era mantermo-nos vivos e saudáveis, continuarmos a respirar pura e tranquilamente.

Conversa puxa conversa, e no meio das sugestões do que haveríamos de fazer para manter a saúde e não sofrermos o mal do sedentarismo, ou pior, o de termos que ficar forçosamente limitados aos cubículos das nossas casas, quais astronautas em minúsculas cápsulas, nas naves orbitais…O que havíamos de fazer? Os dias tornam-se pequenos e o tédio preenche as horas com uma sonolência que se prolonga por mais de oito horas na posição horizontal.

Sem praia, sem rua, sem os amigos a bater à porta, sem almoçaradas de família, sem trabalhos no quintal ou recados a cumprir, ficamos mesmo é agarrados à televisão, a vaguear pela cozinha, comendo e bebendo, numa fuga cismada de nos estarmos a satisfazer.

– Bom, professor. O que havemos de fazer para não engordar e manter saudáveis?

– Tão fácil. Vamos passear.

– Passear! Quando estamos aqui trancados?

– Sim. Caminhar está autorizado. Ler também. Um livro é mais do que um catálogo de viagem… é um profundo mergulho noutras paisagens, é uma mudança de ares e ambientes, o deslumbre de diferentes cores e sabores, distintos perfumes e panoramas, emoções ligadas a personagens de quotidianos recriados, compostos e dispostos, arquitectados por um artista que se entregou à paixão da escrita…

Ilustração de Maria do Rosário Menezes

Lembrei-me então de lhes falar do livro que me havia sido oferecido pelo Natal, uma recente edição do Bairro da Lata, escrito pelo meu autor preferido, americano, John Steinbeck, Prémio Nobel de 1962 e recomendado no Plano Nacional de Leitura.

Mas como este ainda está por abrir, falei-lhes de um outro, do último livro que tinha lido do mesmo Steinbeck, O Potro Vermelho, publicado pela Lisboa Editores em 2007, com notas e orientação de leitura de Maria Manuela Novais Santos e que é recomendado para aos alunos do ensino básico.

É desse livro que vos gostaria de partilhar, mais do que a bela ilustração da capa, os caminhos, esse como que vaguear pelo isolado rancho da Costa Oeste, em tempos da grande depressão de 1930.

Assim… “Ao romper do dia…”

Janeiro 2021, Roque Oliveira, professor de Artes Visuais

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