Acordei com a palavra água

a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,

e fui beber. O dia, lá fora, estava azul

e tinha o tamanho de um rio

ou de uma cidade fantástica, e sorria.

 

O sorriso do dia é igual ao do sol.

É largo e branco. Tem dentro

os frutos doces da calma das manhãs,

e se for Verão são capazes de matar

a fome e a sede que têm os bichos,

que têm os homens, que têm as casas.

 

As casas? Também têm sede, uma sede

branca como a cal dos muros

que arde nos lábios e queima a garganta

que fala e que canta, que diz azul

e sonha outras cores, outros sítios;

uma sede que arrasta outra sede

e se veste de mar para fingir

que a não tem, que não quer saber dela.

 

Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou

doente do fumo e da pressa do voo.

Quero um ramo alto para fazer poiso

e só encontro telhados, antenas de televisão,

cidades com tosse, nuvens tristes, aviões

carrancudos nas estradas do céu.

 

in Uma Viagem no Verde, de Joaquim Jorge Letria

 

Uma Viagem no Verde é também o nome de um projeto desenvolvido pelos professores Luís Martins, Ana Condinho, Anabela Rodrigues, Susana Gonçalves e Maria Simas, com a participação de alunos de várias escolas do Agrupamento de Escolas de Sampaio, articulando diversos ciclos de ensino e mobilizando agentes vários da comunidade educativa, nomeadamente as famílias.

Foi apresentado ao público sesimbrense na 13.ª Mostra de Teatro Escolar, a 14 de maio deste ano, e inspirou-se na obra homónima de José Jorge Letria, que põe na boca de um «duende-poeta», uma elegia à natureza e à fantasia e, ao mesmo tempo, uma condenação à depredação que o homem exerce sobre o meio ambiente, pondo «tristes os bichos da terra / por verem crescer cidades sem sol», como os peixes doentes, com o «óleo que mata cardumes, / cavalos-marinhos, que suja os corais, / as algas, a brancura doce das praias».

Em homenagem à beleza do texto, alunos e professores criaram cadências e coreografias, inventaram cenários e roupagens que tornam esta “viagem no verde” uma experiência mágica e multicolor. Este ano foi encenado como que o primeiro capítulo da obra, mas ficou a promessa de se continuar a explorar o texto do «gnomo-cantor», com mais som, cor e movimento.

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