A Aldeia do Meco manteve-se isolada durante décadas e praticamente desconhecida do mundo; porém, nos primórdios dos anos sessenta do século passado, surgiram os primeiros sinais de mudança nos hábitos e costumes dos seus habitantes.

O único automóvel existente na “Aldeia” era o do senhor Ramada Curto, abastado proprietário da Quinta da Foreira e de muitas terras pelo concelho, afirma Domingos Caiado, mais conhecido por Ti Bita.

Com difíceis acessos, os caminhos de terra batida eram percorridos a pé, de carroça, de burro e em carros de bois. “A natureza no seu estado mais puro começou a atrair os primeiros banhistas, que não eram mais de sessenta pessoas”, refere Pedro Caetano do restaurante Onda Azul na praia do Moinho de Baixo, neto do senhor Luciano que trabalhava nas hortas, que presentemente são estacionamentos privados. “Os proprietários abandonaram o sector primário e optaram pelo sector terciário”, conclui.

Nos anos setenta o número de pessoas era muito diminuto. Em 1973 eram meia dúzia de pessoas. Dá-se o boom com o nudismo, o Meco começa a ser falado, atinge notoriedade, com a televisão, os artistas marcam presença, Herman José e outros, e acabam por impulsionar o turismo na Aldeia do Meco.

Pedro Caetano, atual gerente do restaurante, conta que “o médico Jorge de Campos, muito conhecido em Sesimbra, vinha com a família para a praia e que um dia lançou um repto ao avô Luciano: «Epá porque não abres uma barraquinha e davas um apoio ao pessoal? Assim o pessoal podia comprar umas águas e umas cervejinhas…»”

Recorda que era uma praia completamente deserta, sem acessos e sem nada e que a única estrada existente era a estrada da Marconi, construída pelos militares do MFA até às hortas na praia do Moinho de Baixo.

Luciano, o avô de Pedro Caetano, resolve montar uma barraquinha, numa altura em que o turismo era inexistente no Meco, lembra-se que a estrada de Alfarim era pelo pinhal, sem quaisquer condições, e que vinham de carroça, com bidões de 200 litros de água para abastecer o estabelecimento. Nessa altura também apareciam as senhoras que vinham de burro dos lugares de Alfarim, das Caixas e do Meco, lavar as roupas na ribeira que desagua no Moinho de Baixo. Coravam as indumentárias na zona dos chorões, nas margens da ribeira, e aí se reuniam durante parte do ano, mas na altura do verão surgiam as tendas de campismo (selvagem) por volta dos anos 80, quando os turistas “invadiram” uma vez mais o local, até que saiu uma Lei que proibiu esta prática.

Ao Moinho de Baixo chegavam muitos portugueses e alguns estrangeiros, na sua grande maioria alemães da RFA (antiga Republica Federal da Alemanha) que atravessavam a Europa de motociclo, de mochila e tenda às costas e que conviviam com os habitantes, normalmente por períodos de quinze dias. Naquela altura “só servíamos frango assado e sardinhas assadas, não havia mais nada a servir. O chão do restaurante era de madeira e revestido de areia da praia, servíamos descalços às mesas”, relembra Pedro.

O início do restaurante é a 10 de junho de 1973 e no ano de 1980 inicia-se a construção do novo restaurante, que mais tarde chegou a acolher o evento Douzelage.

O Onda Azul, com data de início de atividade em 10 de junho de 1973 foi, durante a sua existência, alvo, por quatro vezes, da fúria do mar.

Pedro Caetano lembra que “existiram vários bares pela praia, sendo o mais antigo propriedade de um senhor alemão que só trabalhava durante o verão, esteve aí uns vinte anos e acompanhou a evolução do restaurante. Mais tarde surgiu um bar dumas pessoas de Lisboa. Existiu um bar gerido por pessoas do Seixal, localizado na praia do nudismo bem atrás do morro, em que a indumentária de serviço era apenas o seu próprio corpo. Foi proibido!

O Bar do Serafim foi o seguinte, o Bar do Peixe e o Posto 7 foram dos últimos.

Pedro Caetano queixa-se da falta de infraestruturas no Meco e da falta de divulgação, isto porque o tipo de turismo existente baseia-se fundamentalmente no Sol e Mar, finda a estação ficam praticamente parados”. O que mais contesta é o facto de “termos condições ímpares em termos ambientais, culturais, uma qualidade gastronómica, um património e costumes e tradições e não aproveitarmos estas riquezas”. Acrescenta que “o que falta para o futuro é uma visão de um turismo de alguma qualidade, não de um turismo de massas. Mas para recebermos esse turismo de qualidade necessitamos de infraestruturas de qualidade”.

Muitos dos seus clientes confessam os seus hábitos: vêm à praia, tomam as suas refeições e praticamente não têm mais nada para fazer, falta a animação, é necessário criar programas que ocupem as pessoas durante as suas estadas.

Considera que o vinho, associado aos queijos e ao pão caseiro, poderia ser uma boa aposta em termos de promoção turística.

O naturismo está em voga e podemos desenvolvê-lo, mas temos um acesso degradado, no Rio da Prata não existem instalações sanitárias que respondam às necessidades dos frequentadores da praia. Refere a falta de apoios de praia, acessos e estacionamentos, as pessoas continuam a frequentar a praia, passam por todos os lados, degradam o ambiente.

Pedro Caetano recorda os seus tempos de miúdo: o Ti Sevelas “uma personagem única que correu mundo, era agricultor e com o seu burrico percorria os areais das praias e vendia frutas aos banhistas. Aparelhava o animal com cestas cheias de frutas e deslocava-se de Alfarim até às praias. Com calças de fazenda, camisa e sapatos, dobrava-as pelos joelhos e com aquela roupa e chapéu começava perto do restaurante e ia pela zona do nudismo por aí acima a puxar o seu burro e a vender fruta a toda a gente, imagine-se num domingo, cheio de pessoas nuas e de repente aparecia aquela personagem fantástica e única a passear o burro e a vender frutas. Era assim que ganhava a vida e sem falar línguas nunca deixou de receber o seu dinheiro. Certamente que deve haver inúmeras fotos que retratam esses momentos”.

Relativamente às artes, o neto de Luciano lamenta o facto de atualmente só existirem duas, “os jovens não aderem. Antigamente as artes eram puxadas à mão, hoje são auxiliadas por tratores, é uma pena perder-se esta tradição marítima ancestral”, conclui, a contestar e a afirmar que deveria haver uma zona delimitada e reservada à Arte Xávega, pois os pescadores já cá estavam quando os turistas chegaram. Defende que as pessoas podiam participar e ter o seu quinhão. “Não é correto dizerem que estão a incomodar os turistas. É lamentável que os pescadores possam apenas ir ao mar no final do dia ou de madrugada”, termina.

 

João Silva

Material cedido por O Sesimbrense, edição de 1 de janeiro de 2017

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