Naquela manhã de Maio, na minha casa, a luz entrava por todas as janelas e não deixava margem para dúvidas: nessa manhã de Primavera, o sol lutava contra as nuvens que teimavam em aparecer aqui e ali, o vento ia soprando baixinho, e o mar da Baía, esse, nem mexia. Tudo estava como devia estar.

A vila aconchegada no regaço dos montes que a amparam e desce-lhes até aos pés — até ao grande areal exposto ao sul, que a ponta do forte Cavalo limita à direita, e o morro do Aguincho, acabando em focinho desmedido e brutal, limita à esquerda. A esta hora, seis da tarde, um está reduzido a sombra espessa, e o outro escorre ainda o vermelho do último sol. Um grande forte de Lippe, raso com o mar, ao meio da praia cheia de barcos encalhados e de rebuliço humano. Casas pobres, casas lacustres, armazéns, redes a secar nos varais. Anoitece, mas a vida não cessa. O peixe das caçadas é arrematado à noite, quando os barcos regressam da pesca. Pelo areal fora, em quatro ou cinco fiadas paralelas, cada caçada expõe o seu peixe, que reluz ao luar com um tom de prata antiga — gorazes a um lado, e pescada, chernes a outro, todos em quatro, cinco filas alinhadas, e o grupo de regatões à roda a disputá-los ao clarão dos archotes.

São mais de quinhentas as embarcações varadas no areal — barcas, botes e aialas, e além destas o batel com uma trave saliente na proa, o gavete, que serve para levantar a testa da armação.

O pescador de Sesimbra, que vai às vezes muito longe, não conhece a agulha de marear. Regula-se pelas estrelas e pela malha encarnada da serra. Lá fora, quando veem o cabo ao nível de água, dizem que estão no mar do cabo raso, e, quando o farol desaparece, estão no mar do cabo feito. Conhecem a costa a palmo: o mar novo, que dá o peixe-espada, o mar da regueira, que dá a pescada, o mar da cornaca, que dá o goraz e o cachucho, e o do rapapoitas, que dá os grandes pargos, conhecidos por pargos de morro.

Seis horas da manhã. Noite de luar claro e frio. Desço a rua ainda tonto de sono. Ao longe o moço chama: — Ó tio Julião, vamos embora… pra-a loja!… — Muitos homens dormem na barraca onde se guardam os apetrechos das artes. Entro. Uma luzinha fumega. Redes, remos, cabos, pedaços de velas, e sombras, tudo misturado. Remexem vultos no escuro. Sobre a tarimba mal distingo farrapos de homens deitados.

— Vá lá! Vá lá!… — diz o arrais.

Erguem-se, juntam-se e o grande barco começa a deslizar nos panais. Salto dentro e encolho-me ao pé do moço, na caverna. É noite, noite de lua redonda e gelada. Os homens remam em cadência e o panorama vai saindo do escuro à medida que o barco se afasta, todo em sombras empastadas e enormes, cortadas a pique, que se destacam pouco e pouco umas das outras em fantasmas de penedos, em morros salientes com buracos metidos lá dentro… Ao cimo da água, dum azul quase negro, escorre o luar em tremulina. São mil fios de luz que estremecem ao mesmo tempo…

Sete horas. Lua ainda muito alta aspergindo a terra de pó branco. O barco abriga-se do noroeste junto à costa, ao pé dum grande penedo donde se levanta uma revoada de corvos assustados. Ao nascente, sob a estrela de alva, distingue-se uma nódoa rosa. O moço vai dizendo o nome de todas as pedras e explica:

— Aqui estamos abrigados da lapeirada do vento…

Noto que a luz já não é a mesma. Não é a claridade do dia, é ainda o luar. Mas o pó branco sensibilizou-se e estremece.

— Vamos lá! Vamos lá às artes!

Os homens remam numa cantilena monótona: — Rema! Rema! Ceia agora!…

Ergo-me e vejo o mar coberto de embarcações iluminadas pelo fogaréu dos archotes. São as artes, que esperam o nascer do sol para o lanço; são as armações que começam a alar a rede: — Rema! Rema!… — Avermelha e alastra a mancha do nascente…

Momento único. Momento em que o branco desmaia e em que a luz do luar e a luz do sol se entranham e misturam. O grande manto branco escorre sobre as águas e já o nascente lhe ilumina a esteira mágica, que estremece toda. Olho para o céu: no céu, azul às enxurradas, lavando-o do luar. Aumenta e alastra a claridade. A lua teima, caem jorros brancos que não cessam, mas o nascente, num triunfo, enche tudo de luz. Os grandes morros emergem da tinta azul como colossos ensanguentados.

Mais fragas além.

Toda a costa recortada. Cabos enormes e maciços, e ao longe o Pombeiro entrando de rompante pela água dentro. Panorama a vermelho. O sol escorre sobre as palhetas do grande manto branco, que vibram como se fossem levantar voo. E todo esse luar magnético e branco, ao mesmo tempo que estremece e reluz, doira. Doira um instante e morre…

É quase dia. Sobre o nascente duas nuvenzinhas como véus. Já distingo as silhuetas dos homens alando as artes contra a luz. Dois barcos puxam a rede e juntam-se à medida que se aproximam do saco.

— Leva arriba! Leva arriba!

— Agora! Agora!

O saco está à borda. Veem-se as bolhas cobrindo a superfície da água: o gorgolhido. A sardinha não tarda a vir com a cabeça ao de cima. Já os homens começam a tirá-la para dentro dos barcos com as xalavaras.

— É pouca…

— É uma teca — diz o moço, designando a pequena porção de peixe.

Sete e meia. É dia claro. Ao pé de mim mergulham dois patos pequenos de dorso escuro e peito branco, dois macorrilhões, e um roaz salta fora da rede. Os primeiros raios de sol batem em cheio em Sesimbra apinhada à beira- -mar.

— Vamos agora ao calhau.

É a armação valenciana, de que se veem as grandes boias de cortiça ao lume de água — construção complicada que se compõe de corpo, rabeira e legítima. O corpo compreende a câmara, o bucho e o copo, trapézios mais ou menos regulares, fechados por redes verticais que vão da superfície até ao fundo. A rabeira vem da terra até à boca da armação, de maneira que a sardinha, encontrando-a, caminha até à boca do copo, onde se mete.

Quando chego, já os homens, de avental de oleado, puxam o copo para a borda dos barcos, apertando pouco e pouco o cerco.

— Ou! Ou!

— Leva arriba! Leva arriba!

O movimento dos braços acentua-se. Curvam-se, agarram a rede, erguem-na até si.

O barco, cheio de água, adorna.

— Ou! Ou! Vai! Vai!…

Estamos quase à testa do copo e a rede metida no meio dos barcos. A sardinha salta. Mergulham as grandes xalavaras encabadas num pau dentro do saco, tirando-as cheias de vida.

— Venha de lá uma caldeirada!

Vamos regressar. A vaga estoira na areia.

O mar está corso. — À terra! À terra! À espia! — grita a companha. Aproximamo-nos. Agarram-se a um cabo fixo no mar e vão-no puxando a si: o barco corre direito à maresia. É o momento dramático: a onda apanha-o, impele-o, salpica-nos de espuma e atira-nos pela areia acima.

Dei um salto e endireitei-me no sofá da sala, arrancado ao meu sonho semiconsciente pelas sacudidelas de minha mulher. — Estavas a sonhar? — Abro os olhos e viro-me para ela: estava a ler um dos escritos do Raul Brandão sobre o “Pescador de Sesimbra”, e não resisti ao cansaço adormecendo durante a leitura.

«Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento.»

 

Victor Sousa Lopes

Material cedido por O Sesimbrense, edição de 1 de janeiro de 2017

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