Empresa de produção de comboios turísticos na vanguarda do setor

A Deltrain, empresa de produção de comboios turísticos, foi fundada em 4 de julho de 1997 por Humberto Delgado, um visionário que trouxe até à localidade da Maçã um conceito, até então conhecido por poucos.

Em 2009, durante o período da crise, a empresa passa para as mãos do seu filho Humberto Lopes, que pegou no legado do pai, melhorou o produto e tornou a empresa numa referência do setor. Engenheiro mecânico de formação, Humberto Lopes assegura que a sua vocação e o modo como encara as questões ambientais, foi preponderante na sua tomada de posição, quando decidiu assumir o cargo.

Hoje a Deltrain conta com mais de cem unidades vendidas e as encomendas não param de chegar. Conheça os pormenores do sucesso desta empresa, pelas palavras do seu atual gestor, que assume que muito do que a empresa consegue se deve essencialmente à dedicação dos atuais 15 membros da sua equipa.

Como surgiu a Deltrain?

A ideia surgiu pela mão do meu pai que viu estes comboios a circular em França e, inicialmente, os importava para exploração em Portugal. Quando a empresa que fornecia os comboios fechou, dada a nossa experiência no ramo o meu pai decidiu fundar a Deltrain para fabricar os comboios turísticos.

Porquê na Maçã?

Porque somos daqui.

Literalmente a Deltrain é no quintal da casa do meu pai. Podemos dizer que estamos aqui porque estamos perto do sítio onde vivemos. Na altura era o terreno que tínhamos, tentámos mudar para outro lugar, mas a Câmara não nos autorizou a montagem da fábrica nesse novo local. Estamos ainda no processo de legalização do espaço atual relativamente ao qual agradecemos o incentivo por parte da Câmara Municipal de Sesimbra. Estas instalações começaram por algo muito pequeno, com uma oficina de carros que, mais tarde, se transformou numa fábrica de comboios. As instalações foram crescendo conforme o crescimento da empresa, a empresa continua a crescer mas as instalações estão no limite.

E se o negócio se expandir?

Cada vez fabricamos mais, é verdade. O mercado continua a consumir o mesmo volume de comboios turísticos de outros anos, mas nós aumentámos a nossa quota de mercado. Existem perspetivas de crescimento muito promissoras fora da Europa, posso dizer que neste momento estamos a penetrar em mercados como os Emirados Árabes Unidos.

Se continuarmos a crescer a este ritmo teremos forçosamente de mudar de instalações e nessa altura falaremos com a Câmara, porque aqui já não conseguimos aumentar muito mais a nossa capacidade produtiva. Estamos no nosso limite de produção, 10 unidades dos vários modelos. O nosso tempo de produção situa-se entre dois e três meses. Para o fabrico do Comboio Elétrico este tempo médio aumenta para cerca de quatro ou cinco meses, portanto durante o tempo da produção os comboios ocupam espaço. É de salientar que somos uma empresa que sofre de grande sazonalidade, o que congestiona ainda mais as linhas de produção.

De que forma é gerida a única fábrica de comboios turísticos, em Portugal?

O nosso mercado é sazonal, a produção concentra-se nos meses de setembro a abril. No pico da produção é comum fazerem-se horas extraordinárias e contratar pessoal a título temporário. No resto do ano estamos a fazer inovação, desenvolvimento e manutenção dos comboios dos clientes e dos nossos comboios para aluguer.

Como é que caracteriza o mercado?

É um nicho muito específico, muito pequeno e familiar em que toda a gente se conhece, clientes e fabricantes. Sabemos que cada vez que enviamos uma proposta estamos a concorrer com Alemães e Italianos. Existem outros fabricantes, mas a qualidade não se equipara. Como mercado familiar o nosso marketing assenta na nossa reputação e no “passa palavra”.

Que rescaldo faz dos primeiros 10 anos da empresa?

Desde a data da fundação da empresa em 1997 até 2009 a empresa foi gerida pelo meu pai, hoje o meu pai é o Presidente da Deltrain sem funções executivas, mas a quem recorro para as grandes tomadas de decisão. Assumi a Deltrain em 2009, altura em que se deu a crise, até aqui tínhamos marcado presença em Portugal, Espanha e Inglaterra. A partir daqui, começámos a querer explorar o mercado francês, que representa hoje 50% da nossa exploração. Hoje em dia já temos comboios na Dinamarca, Suécia, Estados Unidos da América, Guatemala, Vietname, Malásia, Japão, temos comboios por todo o lado.

A nossa reta tem sido sempre ascendente desde 1997, no entanto houve um declínio muito grande em 2009, dada a crise externa mas também devido a factores internos.

Como é que esse período foi gerido?

Tínhamos alguns capitais e conseguimos dar a volta. Foi um momento muito difícil, e hoje em dia, com outra consciência, diria que naquela altura não havia volta a dar. Apesar de ter a nítida perceção de que o meu pai nunca o diria, porque é um homem de armas e avançaria sempre. Em 2011, quando já não tínhamos mais capital próprio, foi muito difícil ouvir a banca dizer que não nos podia apoiar. Entretanto com muita persistência começámos a ter cada vez mais vendas e superámos esse período, tendo como base dois fatores essenciais: inovação e versatilidade.

Faz parte da nossa empresa, esta capacidade de nos adaptarmos aos requisitos do cliente e estar permanentemente a inovar. Os clientes são os nossos melhores consultores, porque têm a experiência na utilização do comboio e exigem de nós uma resposta às suas necessidades. Esta relação que existe entre a empresa e o cliente é uma simbiose, que vamos melhorando à medida que vamos avançando.

Estando Sesimbra virada para o setor do turismo, não faria sentido haver no concelho um comboio Deltrain?

A Câmara foi muito consciente na sua decisão, o que pretende é que seja outra entidade a explorar a concessão do comboio turístico.

Para mim Sesimbra teria toda a utilidade em ter um comboio turístico, mas também temos que ver que não é consensual.

Na minha opinião vai haver, com certeza, um comboio turístico em Sesimbra, ainda não se sabe é quando!

Mas já houve, em tempos, uma tentativa de ter um comboio em Sesimbra, que não correu muito bem.

O que aconteceu foi que houve uma exigência, por parte do executivo da Câmara, de que o circuito do comboio teria como objetivo transportar as pessoas da vila para ao castelo. O principal cliente do comboio, na altura, utilizava o comboio para se deslocar dos hotéis para o centro da vila e voltar, para subir ao castelo e não levar ninguém, não justificava o investimento. Acaba por não ser rentável para a empresa que queira ter um comboio em Sesimbra esta exigência, e aí é que está o problema, que o que a Câmara exige não é o que o empresário quer.

Mais recentemente fomos convidados para participar na elaboração de um possível circuito para um comboio na vila. E até já circulou um comboio em Sesimbra e na Quinta do Conde na altura do Natal a título experimental, organizado pelo Gabinete Municipal de Juventude.

Ainda não foi encontrada a forma ideal de fazer vontade à Câmara e ao empresário. Quando assim for, penso que aparecem logo dois ou três empresários a concorrer porque Sesimbra é um bom negócio! Por exemplo o comboio é um meio que resolve a circulação de pessoas, de e para os parques de estacionamento. Trazer e levar pessoas talvez seja uma boa ideia!

Falámos há pouco na segurança, na qualidade e na inovação. São esses os vossos principais fatores de sucesso?

A segurança é um “must have”, isso não se discute. Os nossos produtos são homologados (certificados) em todos os países da Europa, incluindo França, eu digo isto porque a homologação em França é mesmo muito difícil. Se o produto não é fabricado em França, então, os testes são muito mais rígidos. Eles têm um regime de protecionismo muito grande.

Fabricamos todos os comboios de acordo com as normas europeias de segurança e qualidade.

Existe uma entidade – TÜV – que nos visita e que verifica que o comboio está produzido de acordo com as regras Europeias. É uma entidade externa que certifica que o produto está conforme.

No que respeita à inovação vamos até onde nos é possível. Recentemente inovámos com o primeiro comboio elétrico, porque defendo muito as questões ambientais, talvez pelo facto de ser escuteiro desde os meus 15 anos. É dos comboios mais importantes que fizemos, passámos da versão diesel para a versão elétrica, para irmos ao encontro das novas regras europeias de emissões.

Defendo que o mais importante é ter o melhor comboio possível, mesmo que isso demore mais tempo a ter o retorno do investimento.

A equipa da Deltrain é o fator mais importante, sem a dedicação e empenho de todos, as melhorias que temos introduzido no produto não existiriam. No descritivo de funções de cada funcionário a primeira frase diz: «Cumprir com os requisitos para a satisfação do cliente». Todos os membros da equipa sabem que não estão a trabalhar para agradar à entidade patronal, estão a trabalhar para o cliente.

O que caracteriza o cliente “tipo” da Deltrain?

Hoje o cliente “tipo” tem mais capacidade crítica, financeira e tem mais bom gosto. Já não vem à procura de preço mas de qualidade. Quando vem à Deltrain, já sabe o que quer. E vem recomendado.

Já não nos procura o cliente que quer negociar o preço, algo que víamos há uns anos atrás. O cliente é mais consciente e mais capaz.

Um facto que me consciencializou foi constatar que atualmente um cliente compra Deltrain mesmo que seja mais caro que a concorrência.

O cliente confia na Deltrain quando faz o seu investimento num equipamento que ronda os 200 000,00€.

Objetivos para 2017?

O meu objetivo continua a ser o mesmo: fazer o melhor comboio possível.

Os meus objetivos não são empresariais, o que eu quero é acrescentar valor para o cliente criando o melhor comboio possível.

Os nossos comboios são para a vida!

Jovita Lopes

Material cedido por O Sesimbrense, edição de 1 de janeiro de 2017

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